Suar é humano
Sentir como vantagem competitiva
“Talvez todos os nossos problemas — toda a violência, a obesidade, as doenças, a depressão e a ganância que não conseguimos superar — tenham começado quando deixamos de viver como corredores natos. Negue a sua natureza, e ela vai emergir de outra forma, mais feia.”
— Christopher McDougall, Born to Run
A tecnologia é a maior máquina de remoção de fricção da história. Mas a fricção é exatamente o que nos mantém humanos. Li Born to Run em 2013 e, treze anos depois, a tese de McDougall deixou de ser sobre esporte para se tornar um manual de sobrevivência em um mundo de abundância tóxica.
Eu corro porque preciso sentir que ainda ocupo o meu corpo. No suor e na dor. Especialmente em tempos líquidos e de caos máximo, a corrida é o meu reduto de verdade. É o momento em que o corpo lembra à mente que ela não manda sozinha. (Dica: o Vale do Silício odeia quando você desconecta para suar).
A inteligência artificial vai triturar o meu P&L, otimizar meu supply chain e, em breve, tomar decisões executivas melhor do que eu. Ótimo. Deixe que ela faça. Máquinas são deuses da eficiência e mendigos da experiência. O Claude ou o GPT podem processar trilhões de datapoints, mas eles não sentem o ácido lático rasgando o quadríceps no quilômetro 38 em Valência. Naquela linha de chegada, o que existe é exaustão, dor e camadas primitivas que nenhum chip de silício jamais vai emular. É aí que reside a nossa margem de vantagem.

É por isso que o atendimento humano não vai morrer, ele vai virar luxo. Quando o bicho pega e o que está em jogo é a minha saúde ou a da minha família, eu não quero um fluxo otimizado. Quero um humano. Alguém que escute, que se importe e que traga alívio. O mesmo vale para o trabalho. Terei agentes de IA no meu time? Com certeza. Mas trabalho nunca foi apenas sobre tarefas. Trabalho é sobre dividir angústias, falar de carreira, de filhos, de envelhecer. É gente lidando com gente. Eficiência é uma commodity; empatia é o novo diferencial competitivo.
O problema é que o mundo está ficando mais concentrado, não mais justo. O trade-off do século 21 é perverso: as Big Techs nos entregam dopamina barata, conveniência e silêncio, enquanto aspiram o capital e a influência para um punhado de CEOs em Palo Alto. Tudo funciona melhor, exceto a nossa sensação de pertencimento. Temos tudo à mão, mas nos sentimos sozinhos pra cacete.
Sou a favor do livre mercado. Mas livre mercado não é licença para que a ganância pelo lucro — agora misturada com o medo existencial de ser desintermediado pela IA — modele sozinha o futuro da humanidade. Regulamos remédios para não sermos envenenados e bancos para não sermos roubados. Por que deixaríamos o sistema operacional da nossa sociedade nas mãos de algoritmos sem freios? Precisamos de guardrails.
O futuro não está sob nosso controle. O que ainda está é o corpo e o esforço mensurável. A corrida ainda responde à mesma equação de sempre: treino, dor, consistência, evolução. Sem atalhos, sem algoritmo. O sentido da vida não está em frases bonitas sobre propósito no LinkedIn, mas na superação diária. Eu contra eu mesmo. Como pai, como amigo, como humano.
Não vamos lutar contra a tecnologia; vamos usá-la como o esteroide que ela é. Mas competir com máquinas em eficiência é um jogo perdido. A resposta é dobrar a aposta no que elas não têm: criatividade, coragem, vulnerabilidade.
Minha tese de investimento para a próxima década é simples: long humano. Tudo o que não pode ser transmitido por fibra ótica vai explodir de valor. Experiências longe das telas, comunidades presenciais, o pé no chão, o abraço que não pode ser simulado, o suor real. Resolução de conflitos, olho no olho, risadas, estar com alguém de verdade. Conversar sem script. Sentir. Ler livros inteiros, escritos na era pré-IA — histórias complexas que nos levam onde o resumo do Reels não alcança.
Let's hike!
Alex
“Ask nothing from your running, and you'll get more than you ever imagined!”
“Não espere nada da sua corrida, e ela vai te dar mais do que você jamais imaginou.”
— Christopher McDougall, Born to Run: A Hidden Tribe, Superathletes, and the Greatest Race the World Has Never Seen


"Eficiência é uma commodity; empatia é o novo diferencial competitivo."
Perfeito!
Sensacional, Alex!