Obesidade digital
Quem está no controle?
Calorias já foram caras. Ser magro, há duas gerações, era resultado da falta de acesso a energia suficiente para viver. A industrialização resolveu isso rápido: plantar, produzir e consumir ficou barato. Açúcar, sal e gordura viraram commodity, e a indústria, sabendo que a carne é fraca, embrulhou tudo em plástico colorido que nosso cérebro não sabe quando fechar. É fácil largar o pacote de Ruffles depois da primeira mordida crocante e com sabor explosivo? O cérebro pira.
Especialmente nos países industrializados, a base da pirâmide passou a ter menos tempo para preparar alimentos e cuidar das crianças. As mulheres ingressaram forte no mercado de trabalho e, enquanto o tempo ficava cada vez mais escasso, o acesso a biscoitos recheados, salgadinhos, refrigerantes, fast food e todos os tipos de porcaria associados ao paladar infantil ficou cada vez mais abundante. A festa estava feita, e o sucesso dos países industrializados e ricos se traduziu na inversão da desnutrição para a obesidade em uma geração. Quem mais sofreu e continua sofrendo é a população economicamente vulnerável, e não é simplesmente por não saberem que excesso de açúcar e gordura faz mal, é porque frequentemente estes alimentos são aqueles que cabem na rotina estressante e orçamentos apertados. Além disso, comida é conforto, e para muita gente abrir o pacote de Bono na frente do TikTok é o momento mais desejado e feliz do dia. Comida fresca e simples virou luxo.
A mesma história está acontecendo com a atenção, só que muito mais rápido.
Tecnologia era cara. Hoje é grátis (subsidiada através da estratégia do drug dealer), abundante e projetada por engenheiros mais inteligentes que você e eu para sequestrar o único recurso que não se recompra: tempo. Scroll infinito, notificação, algoritmo que aprende seu ponto fraco antes de você. Este é o modelo de negócio. Vale lembrar: se o produto é grátis, o produto é você.
Deixar um filho solto numa tela sem limite, ou perder três horas num feed sem lembrar de 5% do que viu, é obesidade digital. Trocamos escassez por excesso, e entregamos esse excesso a um cérebro que evoluiu para caçar comida, não para resistir a quarenta notificações por hora. Açúcar, sal, gordura, like, reel, resposta instantânea: tudo dopamina com embalagem diferente. E assim como na comida, quem menos tem recurso para resistir é quem mais paga o preço: são as crianças e adolescentes de famílias sem tempo, sem repertório e sem estrutura para dizer não à tela que os países ricos estão produzindo em escala industrial; o próprio Jonathan Haidt já documentou isso em números (sou fã desse cara, seu livro The Happiness Hypothesis é um dos meus favoritos). Excesso de tela virou o novo excesso de açúcar barato. Offline virou luxo.
Tecnologia é maravilhosa. Sou fã, desde que quem mande seja eu. Minha carreira inteira foi construída em cima dela: fui um dos primeiros executivos do iFood, investi em mais de 70 startups de tecnologia como sócio de VC, mais de 20 como anjo, e hoje lidero estratégia e M&A de um consolidador de SaaS. Ninguém aqui é ludita. É exatamente por isso que meus filhos não têm smartphone e têm acesso limitado a telas e IA. Antes de terceirizar, eles precisam aprender a ler mapa, escrever, somar e argumentar sem atalho. Ferramenta só otimiza o que você já sabe fazer sozinho. Nesse sentido, eu sou bastante puritano: saúde cultivada com suor e comer direito; conhecimento e sabedoria nutridos por leituras longas, reflexão, feedbacks, escrita, tomada de risco, saber se virar e experiência prática. De dentro para fora.
Vejo isso na minha própria rotina, não só nos meus filhos. Toda vez que deixo um texto ou uma apresentação majoritariamente na mão da IA, o resultado sai mais rápido e mais pobre que minha versão analógica, e eu termino a tarefa vazio. Aprendi pouco, não me orgulho do processo, cheguei ao destino sem ter feito a viagem. O formato que funciona é o oposto do que a maioria está usando: pensar primeiro, sozinho, no desconforto, e só depois convocar a IA para criticar, contestar, apontar buracos, melhorar. Usar a máquina para discutir comigo, não para pensar por mim. Inverter esta ordem é terceirizar a parte do trabalho que mais vale a pena, que mais me faz aprender e crescer. O melhor texto que li sobre isso é do David Brooks, no The Atlantic: vale a leitura.
A vida é curta. É fácil se distrair. Ou você decide o que consome, ou alguém na indústria alimentícia ou no Vale do Silício já decidiu por você.
3 mensagens finais:
Usar tecnologia, não ser usado por ela.
Que nunca percamos nossa capacidade de julgamento.
Quem está no comando?
Alex
“It is not for me to judge another man's life. I must judge, I must choose, I must spurn, purely for myself. For myself, alone.”
“Não me cabe julgar a vida de outro homem. Preciso julgar, preciso escolher, preciso recusar — só por mim mesmo. Por mim, sozinho.”
― Herman Hesse, Siddhartha (excelente livro, leitura fácil porém profunda).

