O Capital fugiu da América Latina
O VC na América Latina não está em um inverno. Está em decomposição.`
O modelo de Venture Capital na América Latina, como o conhecemos entre 2018 e 2021, não está em um inverno. Ele está em decomposição. É duro aceitar isso porque eu vivi os anos dourados do VC no Brasil de forma intensa e apaixonada. Como otimista nato, eu acreditava que era um ciclo com seus altos e baixos. Aquilo acabou, e não vai voltar.
Durante uma década, vivemos da arbitragem da geografia. O jogo era simples: pegue um modelo que funcionou no Vale, traduza para o português/espanhol, queime caixa para ganhar market share e espere pelo próximo round de investimento. Era o ‘Uber para X’ ou a ‘Meituan para Y’. Aqui, seguindo mais ou menos este modelo, vimos grandes negócios decolarem: iFood, Nubank, QuintoAndar, Gympass/ Wellhub, etc.
Hoje, esse modelo é um cadáver. O capital ficou inteligente e agnóstico à bandeira.
A matemática mudou. Hoje, o capital de risco global não está mais interessado em financiar exércitos de motoboys ou frotas de patinetes em São Paulo ou Bogotá. O dinheiro migrou para onde o talento está modelando o futuro (sei que é cansativo falar dela o tempo todo, mas estamos falando da IA). Temos fundos de early stage dedicados a região que ainda tem um dinheirinho para cheques pequenos, o problema é que o modelo de VC exige um dinheirão depois do dinheirinho. E o dinheirão, que são os cheques das séries B e C tipicamente assinados por fundos internacionais, sumiu daqui.
O problema para a América Latina é que a IA não respeita fronteiras.
O capital agora flui para times que constroem com aspirações globais desde o dia zero. Se você está construindo uma ‘camada de aplicação’ focada apenas no mercado brasileiro, você não é uma startup de tecnologia; você é um negócio de serviços local que pode se tornar obsoleto no momento em que um LLM ou Moltbot da vida reproduzir sua aplicação de forma melhor e mais barata.
Os grandes VCs abandonaram a tese da expansão regional e se concentraram nos Hubs de Inteligência:
San Francisco/Silicon Valley: O epicentro óbvio.
Londres: O cérebro da DeepMind e o celeiro de pesquisa da Europa.
Paris: Onde a Mistral provou que você não precisa estar na Califórnia para desafiar a OpenAI.
Tel Aviv: A resiliência transformada em infraestrutura de cibersegurança e IA.
Toronto: Onde a pesquisa acadêmica de ponta virou motor econômico, e onde a fala do Primeiro Ministro Mark Carney afirma e defende a alocação de uma montanha de capital público para a pesquisa de IA com o objetivo de evitar a dependência dos gigantes monopolistas. Aliás, o discurso desse cara no World Economic Forum foi épico e merece ser destacado.
Se você é um founder na América Latina e ainda está tentando vender a tese do mercado local gigante, sinto afirmar, você está jogando o jogo de 2015. A verdade brutal é esta: ou seu produto resolve um problema que um CTO em Berlim ou um CFO em Nova York também têm, ou você não está no venture track.
O capital não quer mais financiar a cópia local. Ele quer financiar o original global.
A pergunta para os founders latinos não é mais “Como eu domino o Brasil?”, mas sim “Por que o melhor talento de IA de Londres deveria ter medo de mim?”.
Se a resposta for “porque eu conheço o mercado local”, sinto informar: você está administrando a própria obsolescência.
Razão para se desesperar? Se você for um founder tech, absolutamente.
Let’s hike!
Alex
“And so castles made of sand slips into the sea, eventually.”
“E assim, castelos feitos de areia deslizam para o mar, no fim das contas.”
Jimi Hendrix


Ótima colocação, Alex! O Brasil precisa para de exportar talentos e começar a exportar tecnologia.
Muito bem colocado, Alex. O mercado mudou, e a América Latina precisa de fundadores ambiciosos, prontos para enfrentar grandes problemas globais. Pelo que tenho visto, essa nova perspectiva tem despertado uma energia incrível entre os melhores fundadores da região.