Ecossistema ou morte
Você é mais um custo a ser cortado
Produtos não valem nada.
Se você está construindo uma solução de software isolada em 2026, você não tem um negócio; você tem um timer de autodestruição ativado. Em um mundo onde a IA escreve código, redesenha arquiteturas e replica interfaces em segundos, a vantagem competitiva de um produto único evaporou. A inovação em produto ficou barata, e o que é barato não sustenta margem.
Se a IA pode copiar sua funcionalidade principal entre o café da manhã e o almoço, sua barreira de entrada é algumas linhas de código facilmente copiáveis. Este tema foi amplamente discutido na bolha tech nas últimas semanas, o que causou histeria nas valuations das empresas de SaaS listadas e muita discussão sobre o futuro do software. Hormônios e exageros à parte, a conta faz sentido. Mas ela não é universal. A IA mata o software acessório que é caro e de difícil implementação, mas ainda nem coça no sistema operacional da vida real.
A realidade é brutal: é ecossistema ou morte.
O jogo mudou do “o software que resolve uma dor” para “o quão difícil é arrancá-lo de lá”. Soluções que resolvem dores profundas de verticais específicas — os ERPs verticalizados — não são apenas softwares; são sistemas nervosos centrais. Tente trocar um ecossistema que integra faturamento, estoque, malha logística e, o mais importante, infraestrutura bancária e de pagamentos. É como tentar trocar o sistema circulatório de um paciente enquanto ele corre uma maratona. O custo de troca (switching cost) não é apenas financeiro, é um risco existencial.
Segurança de dados e conformidade bancária não são algoritmos que você baixa no GitHub. São guardrails construídos com o sangue, suor e lágrimas de décadas de regulação e auditoria. Agentes de IA são bem-vindos, claro. Eles vão otimizar o fluxo, prever o churn e automatizar o suporte. Mas eles não substituem o workflow complexo, a reconciliação bancária de centenas de milhões ou a confiança de que o dado financeiro está seguro. A IA é o motor, mas o ecossistema é o chassi blindado. Sem o chassi, o motor te leva direto para o muro.
Para quem está empreendendo hoje, a lição é amarga: criar o produto é a parte fácil. Distribuir é o novo inferno. Em um mar de ferramentas idênticas, quem já tem a confiança do cliente e canais de distribuição robustos não está apenas na frente; está em outro campeonato. Foi o que repeti algumas vezes nas palestras que ministrei em 2025: distribuição devorou produto.
E não sejamos inocentes. O que estamos usando hoje e chamando de “revolução da IA” é, em grande parte, o maior subsídio da história corporativa. As Big Techs estão usando a “drug dealer strategy”: elas te oferecem modelos revolucionários de graça — ou a preços subsidiados — até você viciar seus processos, sua equipe e sua vida neles.
Depois que você estiver “high” de produtividade “artificial”, a conta chega. E ela será cara. Muito cara. Se você não pagar com dólares, pagará com algo muito mais valioso: sua atenção, seus dados e seu poder de decisão. There’s no free lunch. Na festança da tecnologia, se você não sabe quem está pagando a conta, o prato principal é você.
O vencedor de 2026 não é quem detém o melhor algoritmo, mas quem domina o jogo da verticalização. É quem usa a IA para experimentar rápido, errar pequeno e consolidar o ecossistema. Dados proprietários, limpos e estruturados, são o fosso (moat) que protege o castelo; sem eles, sua solução de IA é apenas uma consulta cara ao ChatGPT. Com eles, ela se torna uma arma poderosa que se torna insubstituível ao seu cliente, especialmente em tempos de combate (como todos os dias da atualidade).
Para quem está começando, o recado é claro: é impossível erguer um ecossistema do dia para a noite. Minha recomendação? Assim que sentir o cheiro de product-market fit, mova céus e terra para assinar parcerias que blindem sua distribuição. Se você é uma solução B2B de compras para o varejo, não tente ser a ‘nova aba’ no navegador do seu cliente. Seja a funcionalidade imbatível dentro do ERP que já controla a vida dele. Torne-se o motor invisível por trás do sistema que ele, por risco existencial, já não pode mais desligar.
Esta mesma lógica também se aplica aos negócios brick and mortar, como as empresas familiares onde atuo como conselheiro. Se você só vende o produto, você é uma commodity esperando o próximo concorrente chinês ou o marketplace da vez te canibalizar.
Uma rede de lojas de móveis e eletros não sobrevive mais apenas movendo caixas; ela prospera quando vira um ecossistema de serviços financeiros próprios (fintech), garantia estendida personalizada e um marketplace de serviços de montagem e design de interiores que retém o cliente no pós-venda. Você não vende um sofá; você vende o crédito, a proteção e a conveniência de um ambiente pronto.
Da mesma forma, um agribusiness morre se ficar preso apenas ao trading de grãos, onde a margem é um erro de arredondamento. O vencedor diversifica para a originação direta, venda de insumos com assessoria técnica proprietária, oferta de barter complexo e serviços de logística e armazenamento que removem a fricção do produtor.
Em ambos os casos, o objetivo é o mesmo: criar múltiplos pontos de contato. Quanto mais interações você domina, mais você captura o ‘petróleo’ do século 21: os dados e a atenção do cliente final.
No mundo físico ou no digital, se você não é o ecossistema, você é apenas um custo a ser cortado.
Let's hike!
Alex
Não apenas aprenda, experimente.
Não apenas leia, absorva.
Não apenas mude, transforme-se.
Não apenas relacione-se, defenda.
Não apenas prometa, prove.
Não apenas critique, encoraje.
Não apenas pense, pondere.
Não apenas receba, doe.
Não apenas veja, sinta.
Não apenas sonhe, faça.
Não apenas ouça, escute.
Não apenas fale, aja.
Não apenas conte, mostre.
Não apenas exista, viva.
— Roy T. Bennett, The Light in the Heart


Muito bom mesmo!
Excelentes reflexões, Alex. Abraço!