Ambição com simplicidade
Iogurte caseiro, café coado e sangue nos olhos
Faz tempo que não escrevo. A vida anda corrida e faltou tempo e disciplina para redigir aqui com a frequência que eu gostaria. Hoje as coisas acalmaram, então segue um relato bem pessoal, no estilo blog anos 2000, sobre as observações e reflexões que se passam por aqui.
Pequenas Rotinas
Manhã de domingo na calma, na paz. Casa arrumada, crianças brincando livres e soltas com os amigos. Longão de corrida concluído com sucesso e com bastante esforço (correr na primavera, depois do friozinho seco do inverno, é sempre um desafio).
É delicioso encontrar prazer, alegria, satisfação — dá para chamar de tudo isso — nas pequenas coisas.
Preparar um iogurte caseiro (descobri isso há 2 semanas e estamos viciados) e transformá-lo em uma cheesecake.
O clássico carbo loading com meu molho ao sugo feito no capricho antes do longão. A massa e o molho, fumegantes, a casa cheirando a alho refogado e a família sentada à mesa. Bom. Tão bom quanto poderia ser.
Ser o primeiro a acordar, passar o café torrado aqui no bairro – o Oceano Café, um dos melhores que já tomei – e sentar no meu sofá favorito, folheando a pilha dos não lidos.
Observar minhas plantas, remover manualmente as danadas cochonilhas das jibóias com um cotonete embebido em álcool, é um misto de terapia com a sensação de perda de tempo. As contradições da vida, não é?
Caminhar até a praia, colocar os pés na areia, sentir o vento carregado de maresia e umidade. Admirar o movimento diário das dunas, catar os famigerados resíduos plásticos que sempre aparecem pelo caminho. Dar bom dia, boa tarde e boa noite aos vizinhos e, às vezes, soltar risadas em encontros espontâneos com essa comunidade que por vezes parece utópica.
Viver esta rotina é o que me alimenta, o que me faz bem. É ela que me energiza para fazer acontecer tudo o que eu quero e preciso resolver. Quebrar a rotina de vez em quando é ótimo, faz bem. Mas é a rotina que sustenta a execução consistente daquilo que queremos da vida.
Imperfeição
Mas é claro que nem tudo é iogurte caseiro e café coado. A vida nos chama de volta à realidade.
Aceitar que o mundo é imperfeito, e que eu, como parte deste mundão lindo, também compartilho desta imperfeição, é o meu grande desafio. Preciso, primeiramente, admitir minha imperfeição para poder entender e tolerar melhor a imperfeição alheia.
Buscar o melhor é natural; foi o que me trouxe até aqui. Mas, como tudo, teve um custo: auto-cobrança exagerada e a mesma cobrança exigida de quem me cerca.
Como pai, tenho clareza que não quero ser aquele que demanda demais dos filhos. Ao mesmo tempo, sei que disciplina e esforço são os pilares da evolução. Como equilibrar? Me parece ser mais arte do que ciência. Aceitar, de verdade, a imperfeição é o meu desafio nesta década.
Arthur Brooks, professor de Harvard, costuma dizer: “O sucesso, fruto da excelência, torna-se um vício.” E o vício em sucesso está na raiz da nossa auto-objetificação: amamos a nossa imagem de bem-sucedidos, não a da vida real.
A vida adulta é, essencialmente, vencer obstáculos que nunca param de surgir. Dia após dia. É por isso que, na minha busca por trabalhar mais resolução de problemas com as crianças, descobrimos as apostilas de matemática do professor Sérgio Morselli. São ótimas, e combinamos de fazer 5 páginas por dia, de segunda a sexta-feira. As crianças gostam, e o resultado é evidente. Fica a dica (não é publi, gostamos de verdade).
Sempre há uma “bucha” para endereçar. A paz e a estabilidade constantes não existem. Aceitar que os problemas vêm e vão, como a corrente de um rio. Alguns se resolvem sozinhos, outros precisam de intervenção forte. Semelhante aos treinos fortes para evoluir em qualquer esporte, é aceitando e se acostumando com a dor que evoluímos.
Tendo a acreditar que saber mesclar estes diferentes aspectos da vida — o profissional arrojado, humano e assertivo, com o pai exigente e amoroso, e a pessoa que preza por simplicidade e qualidade de vida — é o que torna tudo tão interessante. Dá para ser ambicioso, gostar de dinheiro, conforto, querer crescer e construir, e ser simples ao mesmo tempo. É possível querer mais e sentir-se grato pela jornada ao mesmo tempo.
Não são contradições, são complementaridades. São escolhas que com o passar dos anos aprendemos a fazer.
Nosso tempo vende imagens de “personas” únicas, que causam mais impacto e se tornam mais memoráveis, passando um playbook replicável sobre como ser “saudável, rico e com uma linda família”. É o equivalente a um monoproduto, no linguajar de tech: fala-se a mesma coisa e destacam-se os mesmos atributos para trazer clareza ao usuário — frequentemente perdido e confuso no universo digital — de que aquela é a solução perfeita para o seu problema. Nós, como humanos, gostamos destas fórmulas porque elas nos dão a sensação de que o sucesso é possível: basta seguir o passo a passo.
Na prática, a vida acontece de forma bem mais complexa e interessante do que vemos por aí. É problema o tempo inteiro, é preguiça e resistência que precisa ser vencida (mas nem sempre é), boletos infinitos, crianças demandando atenção quando você precisa trabalhar, pilhas de livros não lidos que se acumulam, emails não respondidos, expectativas nem sempre correspondidas. A batalha interna entre o que gostaríamos de ser e o que, de fato, precisamos fazer para chegar lá, com todo o custo envolvido. É a nossa natureza que frequentemente perde a batalha para os pecados capitais clássicos da avareza, gula, preguiça e afins.
É assim mesmo, para todo mundo.
A vida é resolução de problemas, e encontrar prazer, propósito e paz no dia a dia, resolvendo as “buchas”, é o que a torna interessante. É a jornada da evolução, pois sem ela a vida se torna chata e vazia.
“Sua satisfação é o que você tem, dividido pelo que você quer.”
― Arthur C. Brooks



Que belo texto Alex! Encaixou como uma luva aqui. Abs